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Como a morte de meio bilhão de abelhas afeta diretamente a sua vida

Já imaginou um mundo sem chocolate? Ou sem maçãs, amêndoas, tomates ou café? Pois é esse o cenário que podemos muito em breve encarar com a atual ameaça à vida das abelhas em todo o mundo.

Para se ter uma ideia, nos EUA, de acordo com informações da Casa Branca, as colônias de abelhas tiveram um declínio de 58% entre 1947 e 2014. No Brasil, só neste ano, já morreram meio bilhão de abelhas, segundo levantamento do Repórter Brasil.

Esses insetos, responsáveis pela polinização de 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo (FAO), estão sendo ameaçados pelas mudanças climáticas e pelo uso indiscriminado e indevido de  agrotóxicos na agricultura.

Se você está se perguntando “ah, mas que diferença faz ficarmos sem as abelhas?”. A resposta é: muita! “Apesar de não serem nativas do Brasil, a Apis mellifera  tem um papel importante na polinização de plantas cultivadas, sem elas, ou deixaríamos de consumir uma série de frutas, legumes e outros vegetais, ou esses alimentos ficariam mais caros, já que o trabalho de polinização teria de ser feito manualmente pelo ser humano”, comenta Edegar Rosa, diretor de Conservação e Restauração de Ecossistemas do WWF-Brasil.

A polinização das abelhas é um dos inúmeros serviços ecossistêmicos que a natureza oferece ao homem. Só a polinização, por exemplo, gera para a agricultura brasileira cerca de R$ 43 bilhões, de acordo com a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos.

Além dela, temos serviços como a água que vem dos rios e abastece nossas casas; o ar produzido pelas plantas e micróbios nos oceanos que nos possibilita respirar; as florestas absorvendo água da chuva e reduzindo o risco de inundações; as minhocas transformando resíduos em adubo para a terra; os manguezais protegendo a costa durante tempestades; entre tantos outros.

Trabalho em prol da natureza

Aqui no WWF-Brasil temos uma série de projetos que ajudam o meio ambiente a se recompor.  Um exemplo é a parceria que temos com o Banco do Brasil, a Agência Nacional de Águas e a Fundação Banco do Brasil, em prol da conservação das bacias hidrográficas brasileiras.

Desde 2010, já recuperamos juntos 875 hectares de terra por meio de técnicas de reflorestamento como plantação de mudas, semeadura direta e sistemas agroflorestais. O trabalho em campo ajuda a conservar as matas ciliares, que por sua vez aumentam o fluxo de água nas bacias e, consequentemente, o abastecimento de cidades próximas, como é o caso do Guariroba, bacia responsável por mais da metade do abastecimento de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.

Estudos realizados nas bacias do Guariroba (MS)Pipiripau (DF) e Xapuri (AC), chegaram à conclusão de que, em média, cada R$ 1 investidos nas bacias gerou um retorno de R$ 8 em serviços ecossistêmicos para as populações locais.

Quer conhecer mais trabalhos como esse? Acesse nosso Relatório Anual e fique por dentro de todos os nossos projetos. Você também pode apoiar nosso trabalho, se tornando um doador.

FONTE: ASCOM/WWF-BRASIL

A reação do governo Bolsonaro contra a vaza jato mostra por que as reportagens sobre o arquivo secreto são tão vitais

QUANDO FORAM PUBLICADAS, nesta semana, notícias de que a Polícia Federal prendeu quatro suspeitos de hackear o Telegram de várias autoridades brasileiras e de enviar parte desse material ao Intercept, muitos de nossos leitores se perguntaram: qual o efeito que isso terá no jornalismo que estamos produzindo a partir desse arquivo?

A resposta, em uma palavra, é: nenhum. Não terá efeito nenhum.

O interesse público na divulgação desse material era óbvio desde o princípio: esses documentos revelam más condutas sérias e sistemáticas – e, o que nos parece claro, flagrantes ilegalidades – por parte do então juiz, agora ministro da Justiça, Sergio Moro, bem como do coordenador da operação Lava Jato Deltan Dallagnol e de outros procuradores da força-tarefa. As impropriedades cometidas por Moro e pelos demais e expostas pelas reportagens do Intercept são tão sérias que levaram alguns dos maiores aliados de Moro a abandoná-lo e exigir sua renúncia uma semana depois da publicação das primeiras matérias.

À medida em que novas revelações foram sendo publicadas – pelo Intercept e por nossos parceiros jornalísticos – eles recorreram à mesma tática empregada por autoridades no mundo todo quando vêem sua corrupção sendo revelada pela imprensa: distrair a atenção de seus atos, demonstrados pelas reportagens, preferindo fixar seu discursos contra os jornalistas e suas fontes.

É isso que Sergio Moro, se valendo de sua posição de ministro da Justiça e Segurança Pública, vem há semanas tentando fazer. Ele e seus defensores, em sua maioria do partido de Bolsonaro, falam constantemente dos supostos crimes cometidos pela fonte e insinuam que os repórteres e editores do Intercept e dos demais veículos trabalhando em cima desse arquivo são “criminosos” ou “cúmplices” devido ao papel que desempenhamos em expor a verdade. O blog que vem funcionando como porta voz oficial de Moro se refere a nós como “cúmplices”, enquanto Moro nos chama de “aliados de criminosos”.

Ontem, o presidente Bolsonaro se envolveu diretamente no assunto (depois de fugir dele por semanas), com a acusação indecorosa de que Glenn Greenwald se casou no Brasil e adotou crianças para evitar uma deportação (seu casamento ocorreu há catorze anos); e ameaçando Greenwald com prisão: “Ele pode pegar uma cana aqui no Brasil”.

Apesar de seus esforços, Moro, Bolsonaro e seus defensores se mostraram incapazes de obter uma única prova ou indício de que o Intercept tenha feito qualquer coisa além de exercer seu direito de praticar jornalismo, tal qual é garantido e protegido pela Constituição brasileira e gozado por todos os jornalistas do país. Pelo contrário: todas as insinuações e sugestões feitas por eles de que o Intercept teria agido de forma imprópria foram desmentidas pelos fatos.

Depois que a Polícia Federal anunciou as prisões, foi vazada à imprensa uma confissão de um dos suspeitos, Walter Delgatti Neto, apontado pelas autoridades como sendo o principal hacker que teria fornecido o material ao intercept. Depois de ter sido submetido a horas de interrogatório e supostamente confessar ser o hacker, Delgatti Neto disse em seu depoimento, conforme vazado:

  • Que nunca falou com qualquer repórter do Intercept antes de ter realizado os hackeamentos;
  • Que nunca pediu ou recebeu qualquer pagamento do Intercept (ou de qualquer outra parte) por fornecer os documentos;
  • Que só se comunicou com o Intercept de forma anônima;
  • Que nunca alterou os chats enviados ao Intercept, e que considera tecnicamente impossível realizar alterações desse tipo devido à forma como foram baixados do Telegram; e
  • Que se inspirou no whistleblower da NSA Edward Snowden, obtendo e vazando esses documentos com o objetivo de expor corrupção praticada por autoridades que a população tem o direito de saber.

Tendo em vista que nós temos não somente o direito, mas o dever – conforme a Constituição e os códigos de ética que regem nossa profissão – de proteger nossas fontes, nós não comentamos e não comentaremos sobre os indivíduos acusados pela Polícia Federal de terem hackeado contas no Telegram e de ter fornecido o material aos nossos jornalistas. Como já dito previamente, mesmo se quiséssemos, não poderíamos comentar sobre o assunto, visto que nunca soubemos o nome verdadeiro da fonte que nos enviou o arquivo contendo evidências de corrupção por parte de autoridades. O Intercept não fala sobre suas fontes anônimas, seja no caso Vaza Jato, seja em qualquer outro caso.

O que podemos confirmar, entretanto, é o que dissemos enfaticamente desde o início: o trabalho que estamos realizando é jornalismo de interesse público. Receber informações autênticas que revelam impropriedades sérias por parte das autoridades mais poderosas do país e produzir, de forma minuciosa e responsável, reportagens revelando essas impropriedades é o papel de qualquer jornalista sério em qualquer parte do mundo. Mesmo a versão da Polícia Federal sobre o depoimento do suspeito se alinha com o que estamos dizendo desde o início sobre nosso papel nessas reportagens.

Quando publicamos nossa primeira série de reportagens no dia 9 de junho, incluímos um editorial explicando os princípios jornalísticos que guiam nossas reportagens produzidas à partir do arquivo, e qual foi nosso papel em recebê-lo. Conforme escrevemos:

Mas, até agora, os procuradores da Lava Jato e Moro têm realizado parte de seu trabalho em segredo, impedindo o público de avaliar a validade das acusações contra eles. É isso que torna este acervo tão valioso do ponto de vista jornalístico: pela primeira vez, o público vai tomar conhecimento do que esses juízes e procuradores estavam dizendo e fazendo enquanto pensavam que ninguém estava ouvindo.

(…)

O único papel do The Intercept Brasil na obtenção desse material foi seu recebimento por meio de nossa fonte, que nos contatou há diversas semanas (bem antes da notícia da invasão do celular do ministro Moro, divulgada nesta semana, na qual o ministro afirmou que não houve “captação de conteúdo”) e nos informou de que já havia obtido todas as informações e estava ansiosa para repassá-las a jornalistas.

Quando recebemos o arquivo de nossa fonte, fizemos duas perguntas – as mesmas duas perguntas que jornalistas no mundo todo fazem quando começam a trabalhar numa história: 1) é possível determinar se o material é autêntico?; e 2) é de interesse público produzir reportagens sobre o material?

Se a resposta para essas perguntas for “sim” – como foi nesse caso – então temos não só o direito mas a obrigação de informar o público. É isso que estamos fazendo desde o dia 9 de junho, e continuaremos a fazer até que todo o material de interesse público tenha sido reportado. É também por isso que abrimos nossa redação e o arquivo para veículos parceiros.

Nós pudemos confirmar a autenticidade do material usando os mesmos métodos usados por pelo menos seis outros veículos jornalísticos, muitos dos quais usamos no passado para autenticar o arquivo Snowden. Esses métodos incluem comparar o conteúdo do arquivo a materiais e eventos privados para determinar se são genuínos; consultar fontes com conhecimento privado do conteúdo do arquivo; confirmar com juristas e especialistas da área que os documentos altamente complexos e não públicos só poderiam ter sido criados por alguém com conhecimento interno da operação Lava Jato. Também pudemos ver nos chats vazados as conversas dos procuradores com nossos repórteres, e verificamos que são de fato reais. Assim como nós, os demais veículos que tiveram acesso ao material fizeram a mesma verificação.

Se a própria História do jornalismo servir de algo, as tentativas de Moro e de seus defensores de fazer o público focar nas ações da suposta fonte ao invés do conteúdo de nossas reportagens fracassarão. Grande parte do jornalismo mais importante produzido nas últimas décadas foi feito graças a fontes que obtiveram ilegalmente informações cruciais e as entregaram para jornalistas. O que fica registrado na História é o que foi revelado pelas reportagens, e não as ações das fontes que ajudaram na revelação.

Em 1971, um ex oficial do pentágono, Daniel Ellsberg, roubou dezenas de milhares de páginas de documentos secretos provando que o governo dos EUA estava mentindo para a população a respeito da guerra do Vietnã. Ellsberg entregou os documentos roubados ao New York Times e depois para o Washington Post, e ambos produziram diversas reportagens com base nesses documentos. Se hoje em dia o nome de Ellsberg é lembrado, é como um herói que permitiu que essas mentiras oficiais do governo fossem expostas por jornalistas.

Durante a chamada Guerra ao Terror promovida pelos EUA e seus aliados desde os ataques de 11 de setembro de 2001, os maiores veículos de mídia do ocidente – New York Times, Washington Post, NBC News, BBC, the Guardian – receberam repetidamente informações de fontes que violaram as leis para expor sérios crimes, como a prática de tortura, a existência de prisões secretas da CIA, e o sistema ilegal de vigilância da NSA. Ainda que algumas vozes autoritárias tenham clamado pela prisão dos jornalistas que revelaram esses segredos, o público de modo geral tratou essas reportagens como fundamentais, e todas essas revelações receberam o prêmio máximo do jornalismo, o Pulitzer.

O mesmo vale para as reportagens, publicadas em 2013 e 2014, sobre o sistema secreto e massivo de espionagem na internet, afetando populações inteiras, por parte do governo dos EUA e seus aliados – reportagens essas que só foram possíveis graças a documentos obtidos ilegalmente pelo whistleblower da NSA, Edward Snowden. Dezenas de veículos de mídia no mundo todo – inclusive o grupo Globo, no Brasil – manifestaram a vontade de ter acesso aos documentos roubados para produzir reportagens sobre o sistema secreto de espionagem mantido pelo governo dos EUA, porque em casos como esses os jornalistas entendem que o que importa não são as ações ou motivações da fonte, mas o conteúdo revelado ao público.

Hoje em dia, o que é lembrado pela História sobre o assunto não são os julgamentos morais feitos pelo governo dos EUA e seus defensores acerca das ações de Snowden. O que importa – o que ficou registrado na História – é o que foi revelado pelas reportagens sobre as invasões de privacidade massivas e indiscriminada perpetradas em segredo pelas agências de segurança. 

Nunca tivemos dúvidas que Moro, Dallagnol e seus aliados usariam a mesma tática usada por Richard Nixon e seus aliados contra Daniel Ellsberg durante os escândalos do Pentagon Papers e de Watergate, e por tantas outras autoridades pelo mundo quando flagradas praticando corrupção: desviar a atenção das ilegalidades reveladas e focar a atenção do público nas ações de quem as revelou.

Tampouco tivemos dúvidas de que essas táticas fracassariam no caso da #VazaJato, como fracassaram no passado em todos os exemplos citados de jornalismo produzido nas últimas décadas. O que importa ao público é o que seus líderes mais poderosos fazem em segredo. E é por isso que uma imprensa livre é vital e indispensável à qualquer democracia saudável: só o jornalismo independente do governo e livre da influência de oficiais imorais pode garantir que o público seja informado sobre as ações de seus líderes, e desse modo evitar que governantes corruptos atuem nas sombras.

Foi guiado por esses princípios que o Intercept foi fundado em 2013. São esses os princípios que norteiam nosso jornalismo desde o surgimento de nossa organização. E são esses os princípios que – com sua ajuda e apoio – continuarão guiando nossas reportagens.

FONTE: The Intercept Brasil

Nísia Trindade Lima, presidente da Fundação Oswaldo Cruz, faz a abertura do Ciclo de Conferências “O que falta ao Brasil?”

A Presidente da Fundação Oswaldo Cruz e pesquisadora titular da Casa de Oswaldo Cruz, Nísia Trindade Lima, abre o Ciclo de Conferências O que falta ao Brasil? na Academia Brasileira de Letras, sob a coordenação da Acadêmica e jornalista Rosiska Darcy de Oliveira. O evento, sobre o tema Políticas públicas e cidadania: o Brasil que falta, está programado para o dia 1.° de agosto, quinta-feira, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr. (Avenida Presidente Wilson, 203, Castelo, Rio de Janeiro). Entrada franca.

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos Ciclos de Conferências de 2019.

Os Ciclo de Conferências, com transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, tem patrocínio da Light.

Serão fornecidos certificados de frequência.

O Ciclo terá mais quatro conferências no mês de agosto, sempre às quintas-feiras, no mesmo local e horário: A implantação dos Direitos Humanos, com o Acadêmico Antonio Cicero no dia 8; O amor pelo que somos, com o Acadêmico e cineasta Carlos Diegues no dia 15; Porque ficamos para trás, com o Acadêmico e economista Edmar Bacha no dia 22; e Um futuro pior que o passado? Reflexões na antevéspera do bicentenário da Independência, com o diplomata Rubens Ricupero no dia 29.

A CONFERENCISTA

Nísia Trindade Lima é a atual Presidente da Fundação Oswaldo Cruz. Foi também Vice-Presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz de 2011 a 2016. É doutora em Sociologia e Mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ – atual IESP). É pesquisadora titular da Casa de Oswaldo Cruz, professora de Pós-Graduação do Programa de História das Ciências e da Saúde e professora Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IESP/UERJ.

Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Pensamento Social Brasileiro, atuando, principalmente, nos seguintes temas: ciência e pensamento social no Brasil; história das ideias em saúde pública; sertão no pensamento brasileiro; e processos de construção do Estado Nacional. Recebeu, em 2007, da Academia Brasileira de Letras a medalha comemorativa dos 110 anos de sua fundação, e a Medalha Euclides da Cunha em 2009.

Possui uma vasta produção acadêmica, com destaque para os livros Um Sertão Chamado Brasil, prêmio de melhor tese em Sociologia concedido pelo Iuperj em 1999, já em sua segunda edição (São Paulo, Hucitec, 2013), no qual a autora pretende explicar as razões da persistência e da ênfase com que a oposição entre o Brasil do litoral e o dos sertões foi abordada no pensamento social brasileiro; Antropologia Brasiliana: Ciência e Educação na Obra de Roquette-Pinto,obra organizada em colaboração com Dominique Miranda de Sá (Editora UFMG/Editora Fiocruz)e Médicos Intérpretes do Brasil, organizado em colaboração com Gilberto Hochman (São Paulo, Hucitec, 2015). Na Revista Brasileira, publicou, no volume 62, em 2010, o artigo “Euclides da Cunha e o Pensamento Social no Brasil”.

FONTE: ASCOM/Academia Brasileira de Letras

Da esperança ao ódio: como a inclusão pelo consumo da Era Lula atiçou o recalque nas elites

MORADOR DE UM BECO na periferia de Porto Alegre, Zeca, 52 anos, vivia pedindo dinheiro para comprar leite Ninho para sua filha com deficiência motora e cognitiva. Em 2015, quando ele ganhou uma boa grana de um processo na justiça, a questão do leite parecia finalmente estar resolvida. Mas não. Ele foi direto a um shopping e gastou todo valor em um tênis marca, deixando muita gente perplexa. Assim ele explicou:

Todo mundo se comove com minha filha, e leite não vai faltar. Mas ninguém se importou comigo quando quase morri de frio na fila do posto tentando interná-la, quando sou perseguido pelos guardas de shopping como se fosse ladrão só porque sou pobre. Eu tenho direito a ter coisa boa também. Agora que eu comprei as roupas à vista, me respeitam. Volto no shopping sempre que posso só para passar na frente da loja e ver os vendedores dizer: “OI, SENHOR ZECA!”. Eles dizem meu nome.

A história de Zeca é comum a grande parte da população brasileira que teve o sentido de suas vidas alterado com a inclusão pelo consumo da era Lula. Esta coluna traz alguns resultados e histórias de uma pesquisa de campo sobre consumo popular e política feita durante uma década (2009-2019), em parceria com a antropóloga Lucia Scalco. Nosso interlocutor de pesquisa queria sentir o efêmero prazer e poder proporcionado pela compra de um objeto de status. Mais do que isso, ao dizer que era chamado pelo nome pelo vendedor da loja, ele estava reivindicando sua própria existência numa sociedade capitalista, marcada pela exclusão.

O consumo passou a ser um meio fundamental de reconhecimento, visibilidade e cidadania entre as camadas populares nos últimos anos, com consequências na democracia brasileira.

Nasceu a esperança

A periferia de Porto Alegre é um laboratório para observar as transformações políticas recentes do país. A cidade, governada pelo PT por 16 anos (1990-2006), foi um dos berços do Orçamento Participativo (OP) e um dos símbolos do Fórum Social Mundial. Porto Alegre era internacionalmente conhecida como um modelo de democracia radical. Hoje, a realidade é outra: Bolsonaro venceu em todos os bairros.

Durante os governos do PT, as reuniões do OP eram um canal fundamental de mobilização social. Seu maior legado foi fomentar o espaço coletivo, dando a oportunidade da mulher pobre pegar o microfone e falar sobre suas prioridades.

Após anos de mobilização popular, com a vitória de Lula em 2002, inicia-se uma nova era do PT – o lulismo –, caracterizada por políticas de redução da pobreza, inclusão social e financeira em conciliação com as elites. Mas a relação entre o estado e a população se tornava a cada dia mais individualizada e despolitizada, demandando menos esforço na construção do coletivo. “Toma aqui o seu cartão Bolsa Família, cumpra o check-list e tchau”. Aos poucos, houve uma gradual desmobilização das bases petistas e o esvaziamento da lógica coletiva. Mas isso não era um problema enquanto a economia ia de vento em popa.

No plano social mais do que na transformação das instituições, o lulismo focou-se no acesso: a direitos, universidades, crédito e bens materiais. As novas classes médias e os pobres andando de avião pela primeira vez se tornaram emblemas nacionais. Vale notar que o verbo “brilhar” foi amplamente utilizado por acadêmicos e formuladores de políticas públicas para descrever essa fase marcada pela esperança e emergência de uma nação.

Mas como esse grande momento nacional impactou na formação política dos sujeitos de baixa renda? Diferentes pesquisadores, como Wolfgang Streeck e Lena Lavinas, concordam que políticas públicas neoliberais, como a inclusão financeira e inclusão pelo consumo, levam à erosão da democracia, à retração de bens públicos e ao esvaziamento da política no tecido social. Nesses anos acompanhando os “novos consumidores”, vimos os espaços coletivos minguarem, os bens públicos se degradarem e o tio do pavê que comprava um carro se achar superior a seus vizinhos.

É inquestionável que o foco na inclusão pelo consumo causou enfraquecimento democrático em muitos níveis. Mas essa não é a história completa. Em paralelo, trouxe também um despertar político e uma transformação na autoestima e no orgulho das pessoas de baixa renda, o que chamo de autovalor.

Quanto mais as pessoas compravam “coisa boa”, mais conscientes eles se tornavam do quanto as elites não engoliam a figura do pobre orgulhoso. Pobre tem que ser eternamente humilde, servil e grato pelas migalhas que ganha.

Em uma sociedade que joga na cara o tempo todo que os pobres não são merecedores das coisas boas, a aquisição de bens de prestígio pelas camadas populares é um ato poderoso de enfrentamento de preconceitos. Como Katia, 37 anos, sobre seu recém-adquirido óculos Ray-ban:

“Eu sei que quando uma negona como eu usa um Ray-ban no ônibus, fedendo a água sanitária, as pessoas pensam que é pirataria. E eu me importo? [gargalhadas] Dane-se racista! Eu estou me achando uma negona muito gostosa e chique.”

Betinho, 17 anos, me disse uma vez que seu boné da Nike era como uma capa de super herói: “Eu deixo de ser o pobre favelado que ninguém vê”.

Talvez o efeito político mais importante da inclusão pelo consumo foi um incipiente processo do que chamamos de insubordinação. No livro “Laughter Out of Place”, de Donna Goldstein, é descrita uma cena de uma patroa que leva sua empregada num restaurante em Copacabana dos anos 1990. A trabalhadora doméstica fica constrangida sem saber como agir naquele lugar, que sente que não lhe pertence. O Brasil do século 21 é justamente o contrário: um país em que os mais pobres começaram a achar que são merecedores de “coisas boas” e que cada vez mais se sentiam à vontade para transitar num shopping ou num aeroporto.

Kátia prosseguiu falando dos óculos: “Eu ponho meu Ray-ban e subo no elevador social de cabeça bem erguida”. Em um ato microscópico, ela contesta a segregação social e racial dos espaços que transitava.

Isso também ocorreu na época dos rolezinhos. Nossos interlocutores não eram mais os meninos de gangues que, anos atrás, assaltavam na calada da noite para ter um boné. Eles se orgulhavam de estar trabalhando e gostavam de ir ao shopping por onde entravam, como gostavam de enfatizar, pela porta da frente.

O ato de adquirir bens de status embaralha o monopólio de símbolos de prestígio das elites e ameaça romper com as relações servis que se perpetuam desde a escravidão. A autonomia de se comprar o que se deseja pode causar uma reação social devastadora.

Não é à toa que, na época dos rolezinhos em 2014, os shoppings centers fecharam as portas literalmente para os jovens de periferia. Era insuportável uma meninada brincando, cantando, namorando, comprando. Era insuportável ver a autoestima dos filhos dos novos consumidores. Era a metáfora do novo Brasil: o autovalor do pobre e o recalque das elites. Não demorou para a reação chegar, e o resto dessa história a gente conhece bem.

Então, o ódio emergiu

Quando falamos em “esperança” para se referir à era Lula, sempre ressaltamos que era uma esperança precária. Apesar da crescente insubordinação, nossos interlocutores falavam do ato de comprar como uma espécie de “último desejo”, demonstrando uma profunda consciência dos limites dessa inclusão.

Basta relembrar a história de Zeca, cujo prazer de ser chamado pelo nome após ter realizado uma compra cara, veio em meio a uma narrativa que enfatizava que ele havia quase morrido na fila do SUS. Dona Neli, 57 anos, trabalhadora doméstica e mãe de 16 filhos, sempre dizia que as meninas da favela engravidavam cedo e que os meninos morriam pelo tráfico. Ela não poderia dar uma casa ou pagar universidade, então comprava roupa boa porque “dignidade na aparência é só o que eu posso dar”. O pessimismo da narrativa não podia ser mais preciso: seu filho, Betinho, aquele mesmo que dizia que seu boné da Nike era uma capa de super-herói, foi assassinado com 12 tiros em uma chacina do tráfico.

O Brasil mudava rapidamente para melhor, mas também é verdade que as estruturas racistas, classistas e violentas se mantinham quase inalteradas.

Em 2014, o Brasil entrou em uma profunda crise econômica política e, em Porto Alegre, também de segurança pública. O resultado foi a degradação da vida cotidiana da periferia. Em pouco tempo, a grande narrativa de um país emergente e do “direito a brilhar” colapsou.

Grande parte da esquerda hegemônica desdenhou da crise econômica, mas foram os pobres que a sentiram na pele. Nossos interlocutores agora compravam e sonhavam menos. Com dificuldade de encontrar trabalho, não tinham mais cartões de crédito. Estavam com o nome sujo na praça, endividados em um dos sistemas bancários com os maiores juros do mundo.

Para muitos, o principal ganho da era Lula foi conforto material. Com a crise, eles não podiam mais comprar as coisas que tanto adoravam. Eles também perdiam as poucas coisas que restavam em assaltos que sofriam. Cássio, 18 anos, ex-rolezeiro, caixa de supermercado, foi assaltado duas vezes pelo mesmo sujeito na parada de ônibus na volta do trabalho às 23h. O celular roubado custara o salário de um mês inteiro de trabalho – em quem será que Cássio votou para presidente?

Ao perderem seus bens, as pessoas perdiam um pilar de sua identidade, reconhecimento e cidadania, gerando uma crise que também foi existencial. Nada mais restava, nem os bens públicos, que se encontravam ainda mais deteriorados.

A angústia, a violência e o desalento cotidiano foram vividos de maneira individualizada e deslocada do coletivo, já que os fóruns comunitários foram esvaziados. Não havia mais nenhuma política de base de esquerda no cotidiano da periferia.

O que restou então? Uma mídia hegemônica que apenas batia na corrupção do PT, igrejas evangélicas oferecendo conforto e um candidato autoritário prometendo, pelo WhatsApp, acabar com “tudo que está aí”. A verdade é que, entre 2014 e 2018, um vácuo político tomou forma e ficou pronto para ser preenchido.

O problema não foi a inclusão pelo consumo em si, mas a forma como ela foi feita: a soberba da confiança de que só ela bastaria sem mexer de forma profunda na estrutura da desigualdade social. O problema foi ter virado as costas para as periferias acreditando que somente a autoestima dos novos consumidores seria suficiente para produzir uma fidelidade partidária eterna.

*Nomes foram omitidos para preservar a identidade das fontes.

*Correção, 23/7, 11h01:
A última convenção da ONU substitui o uso do termo “pessoa com necessidades especiais” por “pessoa com deficiência”. Corrigimos a primeira frase do texto que usava o conceito em desuso.

FONTE: The Intercept Brasil

‘Future-se’ quer alterar a LDB e outras 16 leis em vigor; leia a íntegra do projeto do MEC

A minuta do projeto de lei do programa Future-se, criado pelo Ministério da Educação para mudar a autonomia financeira das universidades e institutos federais, pretende mudar trechos de 17 leis atualmente em vigor. A lista inclui a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional; o Plano de Carreiras e Cargos do Magistério Federal; a lei que trata dos fundos constitucionais das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; as regras para isenção tributária de importações e as regras de deduções do imposto de renda.

Clique para ler a íntegra do documento.

O “rascunho” do projeto de lei tem 18 páginas e, segundo o MEC, ainda pode ser alterado de acordo com as contribuições recebidas na consulta pública, que está aberta até 15 de agosto. O MEC prevê enviar o projeto de lei ao Congresso no início de setembro.

O projeto repete, em grande parte, o texto que já tinha sido divulgado para a consulta pública na internet nesta quarta (17) – mas traz maior detalhamento sobre as alterações legais e as condições impostas às universidades e institutos que aderirem, de forma voluntária, à iniciativa.

Adesão das universidades

Segundo o projeto de lei, o programa segue sendo opcional, e as reitorias que aderirem ao Future-se serão obrigadas a:

  • Trabalhar com a organização social a ser contratada pelo MEC em todos os três eixos: gestão, governança e empreendedorismo; pesquisa e inovação, e internacionalização;
  • Aderir ao Sistema de Governança a ser indicado pelo MEC – os detalhes não constam no texto;
  • Adotar programa de integridade, mapeamento e gestão de riscos e controle interno, além de submeter-se a auditoria externa.

O texto define que a falha na manutenção desses requisitos pode resultar na exclusão do programa e na “aplicação de penalidades” – a punição não é descrita no texto. Na apresentação do Future-se, o ministro Abraham Weintraub já tinha adiantado que a adesão seria “tudo ou nada”, e que o MEC seria rígido com metas de desempenho.

FONTE: G1

MEC AM, a primeira emissora de rádio do Brasil, precisa continuar viva!

Aos Senhores

General Luiz Eduardo Ramos, Secretário de Governo da Presidência da República

Alexandre Graziani, presidente da Empresa Brasil de Comunicação – EBC 

As entidades, movimentos, pesquisadores, comunicadores e trabalhadores abaixo assinados vêm a público repudiar a extinção da Rádio MEC AM e reivindicar do Governo Federal que revogue a decisão de acabar com a emissora, que tem sido comunicada aos empregados da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), a qual a Rádio MEC pertence, bem como vem sendo noticiada pela imprensa desde a primeira semana de julho. A Rádio MEC AM é a mais antiga emissora em operação contínua, figurando entre as primeiras iniciativas de radiodifusão no país. A Rádio MEC, então Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, foi a primeira emissora a entrar em operação em 1923. A rádio foi inaugurada por um grupo de intelectuais liderados pelo antropólogo Edgard Roquette-Pinto. Em 1936, Roquette-Pinto doou a emissora ao Ministério da Educação, com a condição de que fosse assegurada sua preservação como rádio educativa e cultural. Com a criação da Empresa Brasil de Comunicação, em 2008, a MEC AM começou então a fazer parte das emissoras públicas reunidas na EBC. O fim da Rádio MEC AM, portanto, não se justifica do ponto de vista do compromisso que carrega desde a sua gênese de ser um veículo voltado à promoção da cultura e educação. A extinção também vai na contramão da necessária manutenção de veículos públicos no país, já escassos e que poderiam e deveriam ter seu papel ampliado. De acordo com a nossa Constituição Federal, principal lei do país, deve haver complementariedade entre os sistemas de comunicação público, privado e estatal. O fechamento da MEC é, dessa forma, mais um elemento de desequilíbrio nessa engrenagem. Por seus estúdios e redações em seus 96 anos, passaram grandes nomes da cultura nacional, como os maestros Villa-Lobos, Isaac Karabtchevsky e Guerra Peixe, os escritores Mário de Andrade, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Fernando Sabino e Manuel Bandeira, a atriz Fernanda Montenegro, a cantora Bidú Saião e o jornalista Arthur da Távola. Em respeito a essa trajetória e vislumbrando o potencial que uma emissora de rádio pública pode assumir em um país continental como o Brasil, com muitas desigualdades a serem enfrentadas inclusive no acesso à informação, solicitamos que a decisão de extinção da Rádio MEC AM seja revista. É preciso que a emissora tenha assegurada sua produção de programas e de novos conteúdos, assim como sua continuidade na FM, que seja garantida a sua permanência com a melhor qualidade possível no AM enquanto esse espectro continue em vigência no país.

FONTE:FNDC

Radialistas Comunitários prometem realizar a maior caravana a Brasília nos dias 11 e 12 de setembro

Evento que a abraço brasil avalia como o mais importante do ano de 2019

Comunicadores e comunicadoras,
Recebemos ofício do Presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados Dep. Félix Mendonça Júnior nos convidando para proferir palestra na audiência pública sobre “O papel das Rádios Comunitárias e do Canal de Cidadania no Brasil” que será realizado no dia 12 de setembro de 2019, às 10 horas no Plenário 13 do Anexo II.Essa audiência foi uma iniciativa do Dep. Márcio Jerry (PCdoB-MA) que visa entre outros assuntos discutir à situação das rádios comunitárias e principalmente sobre o PL 10.637/18 que tramita na CCTCI.Desta forma, queremos CONVIDAR os dirigentes, locutores, voluntários, conselheiros e ouvintes das RADCOMs para comparecerem e participarem deste momento importante audiência pública. Também estamos articulando a criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Rádios Comunitárias que será um fórum de parlamentares para discutirem e fortalecerem a nossa causa. Só em 2019 já foram criadas mais de 200 Frentes Parlamentares com os mais variados temas.Portanto, a ida dos representantes das Radcoms de todos os estados para Brasília será para cumprir uma agenda. Uma agenda de luta que visa o nosso fortalecimento e principalmente as nossas conquistas dentro do parlamento brasileiro. Por isso, quem for a Brasília deve participar da nossa programação em Brasília que será a seguinte:Dia 11 de setembro de 2019Às 10 horas – Reunião da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática – CCTCI, no Plenário 13 do Anexo II;Ás 15 horas – Lançamento da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Rádios Comunitárias, local a definir. Dia 12 de setembro de 2019Às 10 horas – Audiência Pública para discutir “O papel das Rádios Comunitárias e do Canal de Cidadania no Brasil” que será realizado no dia 12 de setembro de 2019, às 10 horas no Plenário 13 do Anexo II da Câmara Federal.Convém ressaltar a importância da presença do maior número de companheiros e companheiras ligadas às rádios comunitárias. Esta é uma atividade que todos devem priorizar. Já esta passando da hora de conquistamos mudanças na legislação de rádios comunitárias em nosso país.

FONTE: ABRAÇO BRASIL

Educação de filhos em casa tende a ser mais uma tarefa não remunerada para as mulheres

Mães que praticam o homeschooling têm maior propensão a exaustão física e emocional, mostra pesquisa americana


“O que me preocupava era estar perdendo a mim mesma. Desisti da minha carreira e dos meus hobbies quando as crianças eram muito novas. Dei a eles todo o meu tempo e a minha energia”, conta a norte-americana Laura Sowdon, 40 anos. Ela e o marido optaram por educar os filhos Mya, Ian e Anna em casa. Enquanto o marido Richard Sowdon trabalha como gerente de finanças no serviço postal, Laura assume o papel de mãe, professora e dona de casa diariamente. 

As famílias nos Estados Unidos que escolheram esse sistema de ensino, também conhecido como homeschooling, frequentemente deixam a educação nas mãos das mães, segundo Jennifer Lois, pesquisadora e professora da Universidade de Western Washington, que estuda o tema. Para ela, isso torna a pauta um assunto de gênero. No Brasil, há uma proposta de lei para regulamentar o ensino domiciliar e o exemplo dos EUA mostra que a tarefa deve ficar também nas costas das mulheres.

Em sua pesquisa, Jennifer participou de reuniões semanais de uma associação de pais que ensinam os filhos em casa, além de acompanhar a rotina de 20 mulheres. Entre mais de 600 famílias da associação, as mães eram maioria entre as representantes por serem as mais propensas a assumir o papel de educadoras. 

E a divisão destes papéis frequentemente levam muitas delas à exaustão física, emocional e mental conhecida como Síndrome de Burnout, resultado do acúmulo excessivo de funções em situação de trabalhos que são emocionalmente estressantes. Pelo menos duas das 20 mães entrevistadas pela pesquisadora desenvolveram a síndrome.

Mães como Leanna abandonam a vida profissional e fazem sacrifícios pessoais para poderem praticar o homeschooling. O perfil majoritário das entrevistadas pela pesquisa foram de mulheres brancas, casadas e de classe média, em que os maridos são responsáveis financeiramente pela casa, enquanto elas assumem os demais afazeres, como cuidado com as crianças, com a casa e a educação dos filhos.

Como consequência de ser a responsável pela educação dos dois filhos, a norte-americana Leanna (o estudo preservou o sobrenome das participantes) foi uma das mães que chegaram a este nível de esgotamento. Além de assumir o papel de professora, os cuidados com a casa ficavam inteiramente nas suas mãos devido ao trabalho em tempo integral do marido. A certeza de que estava fazendo a vontade de Deus a fez continuar independente da exaustão, “Sentimos que isso é o que Deus quer que façamos com os nossos filhos”, contou à pesquisadora.

A pesquisadora observa que mulheres que possuem expectativas de relações igualitárias são propensas a estar menos satisfeitas com o mesmo suporte dos maridos do que mães que não esperam equidade. “Eu diria que mesmo quando os maridos as apoiavam no ensino, as mães ainda tendiam a se sentir emocionalmente esgotadas, pelo menos em parte do tempo”, explica. A pesquisa aponta que quando as demais tarefas eram divididas entre os pais, estas mães estavam menos propensas a desenvolver a Síndrome de Burnout.

As razões que levam ao ensino em casa
De acordo com o Departamento de Educação dos Estados Unidos, cerca de 1,7 milhão de crianças recebiam educação em casa (ensinadas pelos pais ou professores particulares) em 2016, dado mais recente. Isso representa cerca de 3% dos estudantes de educação básica do país.

Entre as principais justificativas para a decisão de educar os filhos em casa estão a preocupação com o ambiente escolar (justificativa dada por 90% das famílias), seguida da necessidade de fornecer instruções religiosas ou morais (81%) e em terceiro lugar a insatisfação com a instrução acadêmica das escolas (74%).

Segundo a pesquisadora, o perfil das famílias que optam pelo ensino em casa é tradicional. Das famílias que estudou, quase todas eram brancas, de classe média e constituída por pais heterossexuais. Apesar da menor representatividade, famílias negras também optam pelo ensino domiciliar nos EUA. As razões, porém, se diferenciam das demais.

Muitos pais e mães afro-americanos decidem ensinar os filhos em casa para evitar que sofram racismo na escola. Por acreditar que crianças negras são “desassistidas” nas escolas públicas, Marciea Pinder, de 37 anos, decidiu educar Yazmine, Terryn e William em sua própria casa. “História negra é uma disciplina eletiva, enquanto a história européia é uma exigência. Não é esta educação que eu desejo para meus filhos”, explica.

As regras para o homeschooling nos EUA variam de acordo com o estado. A Associação de Defesa Legal do Ensino Domiciliar (HSLDA) divide os Estados entre baixa, média e alta regulamentação, além daqueles que não exigem notificação dos pais o governo para que os filhos sejam educados em casa. Dos 50 estados americanos, seis são de alta regulamentação (os pais passam por processos burocráticos para iniciar o método e, no geral, precisam aplicar testes periódicos aos filhos e reportar ao governo), outros 19 estados possuem regulação moderada e 25 têm baixa regulação.

A realidade do Brasil
Assim como nos EUA, são semelhantes os motivos que levam o governo de Jair Bolsonaro a propor um projeto de lei para regulamentar o ensino domiciliar no Brasil. A medida era uma das prioritárias dos primeiros 100 dias de governo e uma das principais metas do Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos. Grupos religiosos e conservadores são os principais entusiastas da pauta no Congresso, com a bancada católica e evangélica majoritariamente a favor, cujos parlamentares também defendem a Escola Sem Partido.

O Brasil não possui regulamentação sobre a educação domiciliar. Por conta disso, quem deseja educar os filhos em casa precisa pedir autorização da Justiça. A prática foi considerada ilegal pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no fim do ano passado justamente por falta de regulamentação. Realidade que pode mudar com o projeto de lei apresentado ao Congresso pelo governo de Bolsonaro em abril. 

O projeto do governo visa alterar a lei que dispõem sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e a lei que estabelece as diretrizes de educação no Brasil. Hoje, a Lei de Diretrizes e Bases Educacionais define que os pais devem “efetuar a matrícula de crianças na educação básica a partir dos quatro anos de idade”. 

Cerca de 7.500 famílias, com 15 mil estudantes, são adeptas à prática do ensino em casa no Brasil, de acordo com a Associação Nacional de Ensino Domiciliar (Aned) – o número equivale a 0,03% dos alunos do ensino básico no país. O crescimento do número de famílias adeptas da prática foi de 2.000% entre 2011 e 2018. Segundo a associação, cerca de 60 países têm regras para a educação em casa, entre eles os EUA, França, Portugal, México e Paraguai. Já em países como Alemanha e Suécia, a prática não só é proibida como considerada crime.

No Brasil, o ensino dos filhos também deve se somar às tarefas domésticas e os cuidados com a família que já estão a cargo das mulheres. O estudo Outras Formas de Trabalho, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística de 2017, dividiu as tarefas domésticas em cinco grupos. Entre eles estão o auxílio nas atividades escolares, no cuidado de pessoas, a preparação de alimentos, manutenção de vestimentas e reparos do domicílio. As mulheres são a maioria responsável em quase todos os indicadores, com exceção do último, que diz respeito à manutenção técnica e física da casa.

Considerando a experiência americana de homeschooling, usado como exemplo no projeto de ensino domiciliar do governo Bolsonaro, a pesquisadora Jennifer Lois considera que será desafio adaptar à realidade brasileira. “Imagino que em uma cultura com níveis altos de pobreza, a escolaridade obrigatória ajuda as pessoas a superar a pobreza e contribui para que mulheres controlem sua reprodução. Me parece que permitir que as mulheres se desvinculem da criação de filhos é libertador”, analisa Jennifer. 

“O ensino em casa é, na verdade, um luxo de famílias abastadas com pai, mãe ou pelo menos algum integrante da casa que possa arcar com os custos de manter um dos pais em casa.” No Brasil, 26,5% do cidadãos são considerados pobres, de acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais, também do IBGE. De acordo com o Departamento de Educação dos Estados Unidos, em 2012 cerca de 83% das crianças e adolescentes educados em casa eram brancos, enquanto 89% deles foram identificados como não pobres.

FONTE: AzMina

Marcha das Margaridas se prepara para ocupar Brasília contra o retrocesso

Nos dias 13 e 14 de agosto, Brasília vai parar para escutar a voz de milhares de trabalhadoras do campo, da floresta, das águas e da cidade que lutam por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência.

São Margaridas agricultoras familiares, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras, marisqueiras, geraizeiras, quebradeiras de coco babaçu e extrativistas que vêm de todos os ecossistemas do Brasil e da América Latina até Brasília para apresentar uma plataforma política em defesa da classe trabalhadora, e principalmente das mulheres.

Até chegarem a Brasília, as mulheres se reúnem em suas bases, Sindicatos, comunidades, associações, assentamentos para discutir sobre os principais temas que dizem respeito as suas vidas. Um desses temas ou eixo político é a luta “Por Democracia com Igualdade e Fortalecimento da Participação Política das Mulheres”.

ENTREVISTA

Para aprofundar um pouco sobre o tema: “Por Democracia com Igualdade e Fortalecimento da Participação Política das Mulheres”, a equipe de Comunicação da Marcha das Margaridas conversa com a atual presidenta da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Piauí (FETAG-PI) e recentemente empossada deputada estadual na Assembleia Legislativa do Piauí, Elisângela Moura. A liderança sindical e parlamentar piauiense esteve presente em todas as edições da Marcha das Margaridas.

Comunicação Marcha- Por que as Margaridas marcham por Democracia com Igualdade e Fortalecimento da Participação Política das Mulheres? 
Deputada Elisângela Moura– “Estamos vivendo um momento de muita descrença na política devido a todos os fatos que vêm acontecendo (golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, a prisão política do ex-presidente Lula, e a atual implantação de um governo conservador e machista). Diante deste cenário de fragilização da Democracia e retrocessos de direitos, nós, as mulheres do campo, da floresta e das águas, somos convocadas para ocuparmos lugares estratégicos nos cargos do Executivo e do Legislativo, e sermos peças fundamentais para retomarmos os rumos do Brasil”.

Comunicação Marcha- Muito preconceito? Deputada Elisângela Moura– “O preconceito é um enfrentamento constante. A gente percebe o olhar de algumas pessoas se perguntando se isso procede e se é verdade… Mesmo com esses olhares, fui a primeira mulher a ocupar a presidência da FETAG-PI e a primeira deputada estadual agricultora familiar a chegar à Assembleia Legislativa. Estamos nesse espaço para reafirmar o compromisso junto à classe trabalhadora e manifestar a importância da participação das mulheres no parlamento. Portanto, aconselho as mulheres que queiram participar da política que sigam em frente e não desistam”.

Comunicação Marcha- A luta por democracia está diretamente ligada a luta por igualdade e participação política das mulheres?
Deputada Elisângela Moura- “Se falamos em Democracia, afirmamos a igualdade e a paridade. Assim, só teremos um Brasil democrático e igual, quando desde o nosso parlamento, tivermos a mesma quantidade de deputados e deputadas, de senadores e senadoras. O que ainda está distante de ser uma realidade. Dos 81 senadores, temos 74 homens e 7 mulheres; Dos 513 deputados federais, 436 são homens e 77 mulheres. O cálculo da desigualdade entre homens e mulheres no Congresso Nacional, apontam que as Margaridas têm um longo caminho na luta por voz e vez”.

Comunicação Marcha- Apesar das barreiras, há avanços?
Deputada Elisângela Moura- “A luta das mulheres teve uma grande conquista que se deu no sistema político eleitoral: Com o cumprimento, pelos partidos políticos e legendas, da cota de, no mínimo, 30% de candidatas mulheres aos cargos de deputadas(os) estaduais ou distritais, federais e vereadoras(es), e a destinação de 30% dos recursos do fundo eleitoral para candidaturas de mulheres, aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral, em 2018. Outro avanço se deu dentro do Movimento Sindical de Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais (MSTTR), com a aprovação da paridade de gênero nos espaços deliberativos do sistema CONTAG.

A deputada encerra sua fala relembrando a escritora Simone de Beauvoir: “É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”. E a Marcha das Margaridas é exemplo deste trabalho incansável e da força política que nasce da organização das mulheres rurais, como ação fundamental da luta por igualdade, democracia e por melhores condições de participação política.

FONTE: SINPRO-DF/Com informações da CUT

Jornalistas brasileiros respaldam a “Chapa Audálio Dantas” nas eleições da FENAJ

Com quase 90% dos votos válidos, nova diretoria toma posse no 38° Congresso dos Jornalistas de Fortaleza em agosto.

A “Chapa Audálio Dantas – FENAJ em defesa dos Jornalistas, do Jornalismo e da Democracia” foi respaldada nas eleições para escolha da nova gestão da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), obtendo 89,85% dos votos no pleito encerrado no último dia 18 de julho. Reeleita presidenta, a jornalista Maria José Braga conduzirá a entidade pelo triênio 2019-2022.

Do total de 2.877 votos válidos coletados em todo o Brasil, 2.585 foram para a Chapa Audálio Dantas, única que se apresentou para o pleito, resultado da unidade entre os grupos com atuação no movimento sindical dos jornalistas, após 20 anos de eleições com disputa. Segundo a Comissão Eleitoral Nacional, o total de votantes superou o quórum exigido pelas regras eleitorais.

Para a Comissão Nacional de Ética, foram eleitos Kardé Mourão (2.154 votos), Osnaldo Moraes (2.060 votos), Antônio Pinheiro Sales (2.034 votos), Cláudia de Abreu (1.985 votos) e Salomão de Castro (1.950 votos).

Congresso definirá prioridades

Entre os desafios a serem enfrentados pela nova diretoria da FENAJ no atual cenário brasileiro está a reforma da Previdência em tramitação na Câmara dos Deputados, que dificulta o acesso da classe trabalhadora a aposentadoria pelo INSS. Outra questão é a tentativa de desregulamentação da profissão, com ataques patronais à jornada de trabalho e ao reconhecimento de funções da categoria.

A FENAJ realizará seu 38º Congresso Nacional, para definir as próximas lutas em prol dos direitos dos jornalistas. Com o tema “Reafirmar o Jornalismo e o papel dos Jornalistas”, o evento acontecerá de 22 a 24 de agosto, em Fortaleza-CE. O evento marcará também a posse solene da nova diretoria.
Participação nos Estados

A FENAJ reúne 31 Sindicatos de Jornalistas do país e é a única Federação sindical brasileira que realiza eleições diretas para escolha de sua diretoria e da Comissão Nacional de Ética. Num país de dimensões continentais, a votação facultativa superou o quórum graças ao emprenho dos representantes da categoria de Norte a Sul do Brasil.
Com 467 votos, São Paulo é o maior colégio eleitoral e foi o Estado que garantiu maior número de votos para a Chapa Audálio Dantas. Em seguida, veio o Ceará, com 244 votos. Os dois são, respectivamente, os Estados dos candidatos eleitos primeiro vice-presidente e segunda vice-presidenta da FENAJ, Paulo Zocchi e Samira de Castro.

Também registraram votação significativa o Paraná (201 votos) e Minas Gerais (150 votos), ambos com represantes na Executiva eleita, bem como em Departamentos da nova diretoria da Federação.

O esforço para a realização das eleições envolveu praticamente todos os Sindicatos de Jornalistas do país e não apenas os maiores colégios eleitorais. São destaques pela votação obtida para a chapa a Bahia (142 votos), as Alagoas (134 votos), o Município do Rio de Janeiro (126 votos) e Sergipe (122 votos).

Na Região Norte, praticamente todos os jornalistas que foram às urnas referendaram a Chapa Audálio Dantas. O mesmo foi verificado no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Espírito Santo, no Maranhão, na Paraíba e no Rio Grande do Norte.

Os sindicatos de jornalistas de Dourados, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul informaram que não realizaram eleições. Já os sindicatos do Estado do Rio de Janeiro e do Município de Juiz de Fora não responderam aos comunicados da Comissão Eleitoral Nacional e não informaram se realizaram o processo eleitoral.

FONTE: FENAJ