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O papel das mulheres na segurança alimentar

Quando falamos e estudamos sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), percebemos a dicotomia do papel das mulheres em questões que tocam vários temas da Agenda 2030 das Nações Unidas. Enquanto elas são consideradas peças-chaves para o alcance de muitos dos ODS, representam também a parte mais afetada por muitos dos problemas discutidos nesse marco.

No que toca o tema da fome e da desnutrição, mulheres são as grandes guardiãs de conhecimentos ancestrais sobre alimentação e saúde. São, em muitas culturas, as responsáveis pela alimentação de toda a família.

As mulheres rurais, por exemplo, representam 45% da força de trabalho agrícola em países em desenvolvimento como Brasil, chegando a 60% em partes da África e da Ásia. São responsáveis por mais da metade da produção de alimentos e também desempenham um importante papel na preservação da biodiversidade, garantindo a soberania e a segurança alimentar a partir da produção de alimentos saudáveis.

São responsáveis pela compra de produtos, pela produção de subsistência, pelo conhecimento de manejo de sementes e hortaliças, pelo preparo e pela oferta de alimentos. São elas que, não só guardam esses saberes, como os transmitem para novas gerações e, muitas vezes, os reinventam.

Para além desse papel tradicional, mulheres têm participação cada vez maior nas cooperativas locais e associações de agricultores, e têm envolvimento crescente nos programas de formação agrícola.

Apesar de todo o esforço feminino em prol da alimentação, estudos da FAO apontam que muitas dessas mulheres vivem em situação de desigualdade social, política e econômica, além de contarem com a titularidade de apenas 30% das terras, 10% dos créditos e 5% da assistência técnica.

As mulheres rurais raramente possuem a terra que cultivam e muitas vezes são legalmente impedidas de serem proprietárias. As desvantagens vão muito além: cerca de 60% das pessoas com fome crônica no planeta são mulheres e meninas.

Apesar de diretamente afetadas pela desigualdade de gênero, que se reflete nas mais diversas camadas de suas vidas, elas também possuem ideias e liderança que podem transformar a situação nutricional de suas comunidades. Das agricultoras familiares às merendeiras que preparam diariamente as refeições de milhões de crianças que têm na escola a principal fonte de alimentação, mulheres dão contribuições significativas à segurança alimentar da sociedade e ao desenvolvimento econômico e agrícola.

A igualdade de gênero é um direito. Cumprir esse direito é a melhor chance que temos para enfrentar alguns dos desafios mais prementes de nosso tempo – da crise econômica e falta de assistência médica, às mudanças climáticas, violência contra as mulheres e conflitos crescentes.
A conquista da igualdade de gênero e do empoderamento das mulheres faz parte de cada um dos 17 Objetivos. Somente garantindo os direitos das mulheres e meninas em todos os Objetivos, chegaremos à justiça e à inclusão sociais, economias que funcionam para todos e cresçam apoiadas nos princípios da sustentabilidade.

Por Rafael Zavala

FONTE: ONU

600 dias sem Marielle – e sem uma investigação decente

A ÚLTIMA VEZ que vi Marielle era Carnaval. Quando cheguei no beco das sardinhas, famoso reduto do samba e boemia no centro do Rio de Janeiro, ela já estava lá. Na mão, adesivos da campanha contra assédio “não é não”. O ambiente era ótimo. Cerveja, sol, samba, alegria. 100% Rio de Janeiro. Tão Rio de janeiro quanto ser executada pela milícia.

Naquele início de 2018, a gente não fazia ideia do que estava por vir – em todos os aspectos possíveis. Passou o Carnaval, vida que segue. E Marielle seguiu. Na noite de 14 de março, ela estava num evento que eu assistia pelo Facebook, enquanto trabalhava no Fogo Cruzado, plataforma que mapeia tiroteios e disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio. Era 21h36 quando dei o alerta de tiros nas proximidades da Praça da Bandeira. Exatos 15 minutos depois recebi um zap: “mataram uma vereadora do PSOL e seu motorista agora”.

600 dias depois, aquele dia não acabou.

Novembro chegou e com ele o que chamamos de “mês da consciência negra” – algo que deveria ser diário, ela acreditava. Se estivesse aqui, reclamaria dos muitos convites e atividades concentrados nestes 30 dias, coisas que deveriam ser discutidas e faladas o ano inteiro. Mas também não perderia uma agenda. “Temos que ocupar os lugares”, ela diria.

A imagem festeira de carnaval é complementada por uma imagem que rodou o mundo: aquela mulher forte, altiva, destemida, dura, era também, Marielle.

Um monte de gente que não conhecia Marielle achou ruim que as muitas pessoas que conheciam Marielle – e o que ela representava – chorassem sua morte. “Como assim essa pessoa que eu nunca vi, que diz coisas com as quais não me importo, mobiliza tanta gente?”

O que vimos depois de sua morte é um resumo do que podemos ter de pior como sociedade e como poder público: inábil nas tarefas mais simples e, ao mesmo tempo, empenhado no que há de mais sórdido.

Além da avalanche de notícias falsas que tinham como único objetivo justificar sua execução e destruir sua biografia, tivemos, do lado da “justiça” autoridades empenhadas em destruir a memória e minimizar o legado de Marielle. Logo depois do assassinato, uma desembargadora afirmou –- sem nenhuma prova –- que a vereadora “estava engajada com bandidos“. Na campanha eleitoral, um ex-juiz e candidato a governador quebrou uma placa que homenageava Marielle. Agora, descobrimos que uma promotora que atua no caso e que não se exime de demonstrar seu desprezo por aqueles que chama de “esquerdopatas” fez campanha para o candidato que defende “fuzilar a petralhada”. Que justiça podemos esperar?

É esse lado do sistema de justiça que costuma ser defendido – e repetido – por quem reclama da morosidade da justiça, pede o endurecimento das leis, a prisão dos vagabundos e diz que não aguenta mais ser refém da bandidagem. Tanta contradição em tão pouco espaço.

“Morrem mais de 60 mil por ano no Brasil! Por que vocês só falam disso”, dizem, minimizando o assassinato de Marielle. Eu explico: nós falamos disso exatamente porque a execução dela é o resumo da falência de tudo.

O caso Marielle mostrou um sistema de justiça contaminado.

Os órgãos de fiscalização que não se movem – Alô CNMP! A polícia que “perde provas“. A perícia que despreza procedimentos. A promotoria que corre com laudo porque tem uma coletiva de imprensa. O delegado da Polícia Federal que tenta extorquir um dos acusados e é acusado pela Procuradoria-Geral da República de obstruir investigações. A PM e sua advogada que mentem em depoimentos. O delegado da Polícia Civil que é mandado pra fora do país “para estudar“. E as pessoas pressionadas a confessar. E isso acaba como? Com a investigação da Polícia Civil sendo investigada pela Polícia Federal.

No fim, a Procuradoria-Geral da República chegou à conclusão de indiciar um conselheiro do TCE-RJ, um agente aposentado e um delegado da PF.

Isso é um resumo de todos os elos que os acusados de apertar o gatilho contra Marielle Franco e Anderson Gomes têm com a política e com a polícia. E é isso que faz com que o sistema político-jurídico seja como é: a engrenagem da manutenção de tudo o que está aí – e que todos reclamam o tempo todo.

Como não ligam lé com cré? Ou ligam e realmente acham que este sistema operaria em seu favor? Quando atentam contra uma representante do poder público é o fim da linha. Pessoas como Marielle morrem porque antes dela mataram mais de uma dezena de políticos no Rio de Janeiro e também ninguém se importou. E como não se importam com isso, também não se importam de verdade com a apuração dos mais de 50 mil mortos em 2018.

Marielle são muitas e muitos.

“Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?” – Marielle Franco

FONTE: The Intercept Brasil