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Dicionário de Favelas Marielle Franco será lançado na Fiocruz

Pense em um projeto inovador “que deveria, necessariamente, reunir pesquisadores que são moradores de favelas e têm os seus centros de pesquisa ali dentro e também reunir instituições que têm uma larga tradição nessa área de pesquisa sobre favelas” – pensou? Pois ele existe, é o Dicionário de Favelas Marielle Franco, nas palavras de sua coordenadora Sônia Fleury. E ele será lançado oficialmente na quarta-feira, 10 de abril, em comemoração aos 33 anos do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), no Salão de Leitura da Biblioteca de Manguinhos, na Fiocruz.

Para o Icict, celebrar seus 33 anos com o lançamento do Dicionário de Favelas Marielle Franco é um marco, como afirma Rodrigo Murtinho, diretor do Instituto. “O lançamento do Dicionário de Favelas Marielle Franco fortalece ainda mais as iniciativas do Icict e da Fiocruz na defesa dos direitos humanos. O projeto está sendo construído de forma participativa, alicerçado nos valores de livre expressão e da pluralidade de vozes, dialogando com a diversidade cultural e com as lutas cotidianas dos moradores das favelas.”

Resgate da memória

A ideia do dicionário surgiu quando Sônia Fleury começou a trabalhar com política pública – UPP e UPP Social. Ela percebeu as dificuldades de agregar as informações dispersas sobre favelas, que se espalhavam por diferentes plataformas acadêmicas (antropologia, sociologia, políticas públicas, urbanismo e etc.) e pensou em reunir esse conhecimento. Ao mesmo tempo, a pesquisadora notou que havia uma demanda dos movimentos sociais das favelas pela necessidade de se dar voz aos próprios moradores. Assim, ela reuniu representantes de iniciativas já estabelecidas como o Grupo Eco, da favela Santa Marta, do CPDOC do Grupo Raízes em Movimento, do Morro do Alemão, ou do Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania – CEACC, da Cidade de Deus e trouxe também pesquisadores como Luiz Antonio Machado da Silva, um dos pioneiros da área, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos – IESP, da UERJ. “Fizemos um bonde, convidamos essas pessoas – intelectuais de dentro da favela e intelectuais que estudam a favela para nos associarmos e criar essa ideia do Dicionário”, explica Sônia Fleury.

Espírito vivo

O grande desafio era transformar o dicionário em algo que todos pudessem construir juntos. Marcelo Fornazin, professor do Instituto de Computação da UFF, foi quem deu o formato ideal com o uso da plataforma Wiki. “A Wiki é um meio de mobilizar as pessoas a falarem de suas realidades, de se trabalhar com isso”, explica Fornazin. E assim nasce a WikiFavelas, a plataforma que é a base do Dicionário. “Quando a plataforma Wiki se descola de um dicionário, de um livro físico em papel e vai para um ambiente virtual, o processo de edição desse conteúdo fica mais aberto, várias pessoas podem colaborar. O dicionário passa a ter um ‘espírito vivo’ que está sempre se atualizando, sempre se modificando”, afirma Fornazin. Na WikiFavelas, as pessoas podem construir seus verbetes, aprimorá-los, acrescentar conteúdo, editar. São mais de 150 pessoas contribuindo para os verbetes, gente de várias favelas no Rio de Janeiro e a tendência é de crescimento.

Os verbetes são os mais variados Por exemplo, é possível saber um pouco da história dos bailes funk, no verbete ‘baile funk’, ou saber o significado das AEIS – ‘Área Especia lde Interesse Social’, ou ‘Carnaval de rua na Maré’, ou ‘Guerra ao crime organizado? Favelas e intervenção militar’, ‘Projeto Vamos Desenrolar: Produção de Conhecimento e Memórias’, só para citar alguns exemplos.

Marielle vive

A iniciativa pioneira do dicionário teve o apoio e a participação de Marielle Franco, que não só foi uma entusiasta da obra, como, a convite de Sônia Fleury, escreveu uma ementa e uma proposta de verbete sobre a sua monografia UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da Política de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, que consta no dicionário. Segundo a coordenadora da publicação, ela estava realmente muito envolvida e entusiasmada. Com o seu assassinato, decidimos colocar o seu nome no dicionário, que passou de Dicionário Carioca de Favelas para Dicionário de Favelas Marielle Franco

Não foi apenas uma decisão, como explica Fleury. “Ela é um símbolo da mulher, da favela, dos grupos negros e de minorias de gênero, e com essa homenagem, estaríamos assumindo, com o mesmo rigor e clareza, esses compromissos que ela teve em sua curta vida, mas que foi tão brilhante na defesa de seus ideais, da democracia, dos direitos de cidadania da população de favela. Então, é uma homenagem, mas é também um compromisso político nosso”. 

A alteração implicou também em uma mudança no perfil do dicionário, que deixou de ser local, para ser nacional. “Ele muda de dimensão, com isto abriremos para todo o Brasil”, explica a coordenadora. Atualmente, estão cadastrados 272 verbetes e o dicionário já conta com 71 colaboradores, gente de várias favelas no Rio de Janeiro e a tendência é o aumento do número de colaboradores.

Além de Luiz Antonio Machado da Silva, outros pesquisadores também se uniram a proposta do WikiFavelas, em seu Conselho Editorial, como Orlando Silva, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – IPPUR, da UFRJ e Marcia Marcia Leite, da UERJ. Dos movimentos das favelas participam também Cleonice Dias –  da Cidade de Deus, Itamar Silva – do Morro Santa Marta e Allan Brum – do Morro do Alemão, que representam grupos de pesquisadores de favelas.

Além do Conselho Editorial, o WikiFavelas é composto por um Grupo de Estudos, formado pelos pesquisadores Marcelo Fornazin, da UFF; Gabriel Nunes, graduando de Serviço Social da UFRJ; Palloma Menezes, socióloga e professora da UFF, e Clara Polycarpo, socióloga e doutoranda do IESP/UERJ. O site do Icict ‘bateu um lero’ (ou ‘deu um papo’) com os integrantes do Grupo de Estudos – leia aqui.

Para a coordenadora Sônia Fleury, o dicionário é um instrumento que permite o resgate de memória, de difusão de informação e de empoderamento da comunidade para poder falar com a sua própria voz sobre o que ela quer falar de si mesma. “Mas não é apenas a preservação da memória da favela, é muito mais do que isso, é um resgate da memória da cidade do Rio de Janeiro que desconhece a realidade das favelas”, conclui. 

Apoio e parceria

Uma das características do dicionário de Favelas Marielle Franco é conseguir reunir instituições parceiras que têm muito a contribuir para a sua manutenção e desenvolvimento. Segundo Sonia Fluery, vale destacar o apoio incondicional dado pela presidente Nísia Trindade para que o dicionário se estabelecesse na Fiocruz.  

Esse apoio veio na forma do envolvimento de duas unidades, o Icict e Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), como explica a coordenadora do dicionário. “O potencial que se descortina com nossa inserção no Icict, já que há muita demanda dos grupos de pesquisadoras das favelas para apoio na preservação, catalogação e divulgação de seus acervos, é imenso”. Fleury explica que originalmente o dicionário não pensava nessa linha de trabalho, até por falta de expertise. “Consideramos da maior importância apoiar grupos que colecionam fotos, documentos, entrevistas com os primeiros moradores, manifestações culturais, etc., que representam a memória de uma favela. A nossa inserção na Fiocruz, que tem as duas maiores coleções com fotos sobre favelas na COC, e no Icict, que detém o conhecimento sobre tratamento da informação, é fundamental para que possamos dar resposta a essa demanda mais do que oportuna”.

Sobre o lançamento

O lançamento contará com a presença da presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, do diretor do Icict, Rodrigo Murtinho, da coordenadora do Dicionário de Favelas, Sônia Fleury, da deputada estadual do Rio de Janeiro, Mônica Francisco, do presidente da Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro – Faferj, Rossino Diniz, e da representante do Conselho Editorial do Dicionário, Cleonice Dias. 

FONTE: ASCOM/ICICT – Fiocruz

Palestra aborda os caminhos para uma outra história do Brasil em sala de aula

Com o tema Dá para ensinar sobre liberdade? – Caminhos para uma outra história do Brasil em sala de aula, a Associação Nacional dos Professores Universitários de História (ANPUH-DF) realiza mais um seminário no dia 12 de abril. A palestra acontecerá no auditório do Sinpro (SIG Quadra 6 Lote 2260), às 14h, e será dada pela professora doutora Ana Flávia Magalhães Pinto, do Departamento de História da UnB.

A atividade é gratuita, aberta ao público e as inscrições poderão ser feitas no dia do encontro. Participe!

FONTE: ASCOM/Sinpro – DF